JUNHO/2020 – Radiologia Odontológica Aplicada à Endodontia – XLVII

               

Publicação Mensal Interna da Papaiz – Edição XLVII

A morfologia radicular e/ou do endodonto pode apresentar um sem-número de variações. O estudo da anatomia externa e interna da raiz (imprescíndiveis ao diagnóstico, plano de tratamento e acompanhamento) só acontece às expensas do arsenal radiográfico, com destaque para as radiografias periapicais e para a Tomografia Computadorizada Cone Beam.

Fraturas e perfurações radiculares, a presença de raízes supranumerárias, condutos acessórios, atresia e obliteração pulpar, dilacerações radiculares são alguns exemplos de quadros anômalos/patológicos que muitas vezes só são detectados apenas por métodos radiográficos.

No entanto, os exames radiográficos convencionais (bidimensionais), possuem limitações. Por meio de uma radiografia periapical, por exemplo, não temos a noção da profundidade: estruturas anatômicas (como raízes) ficam sobrepostas, o que pode mascarar anomalias e/ou lesões como as citadas anteriormente. Por meio da observação das três dimensões espaciais (altura, largura e profundidade) propiciada pela Tomografia Computadorizada Cone Beam, as superposições anatômicas inexistem.

Adicionalmente, diversas publicações, em especial em revistas como a European Society of Endodontology em 2014, a American Association of Endodontists e a American Academy of Oral & Maxillofacial Radiology CBCT em 2015, tiveram como reflexo o emprego cada vez maior da Tomografia Computadorizada Cone Beam em Odontologia, no mundo todo.

 

Raíz Supranumerária

                                                                                                                                                  Raiz Supranumerária

Elemento 36 apresentando três raízes: mesial e distal (com condutos obturados) além de uma raiz supranumerária por lingual; há comprometimento endoperiodontal (L) à raiz supranumerária.

 

 

Elemento 16 mostrando três raízes: mésio vestibular, disto vestibular e palatal. Há imagem compatível com fratura (M) em região de furca, estendendo-se ao terço médio da raiz palatal. O item L indica comprometimento endoperiodontal à raiz palatal.

 

 

Elemento 22: há dificuldade na observação da luz da câmara pulpar e de seu conduto radicular, sugerindo atresia/obliteração pulpar parcial. Ainda, há hipodensidade difusa periapical, com rompimento da cortical vestibular adjacente (H).

 

Elemento 25 apresentando duas raízes: vestibular e palatal. A raiz palatal, dilacerada, mostra imagem compatível com perfuração (P) ao início do seu terço apical. Há rarefação óssea periapical difusa (H).

 

Apesar deste grande salto tecnológico e científico, uma desvantagem da Tomografia Computadorizada Cone Beam deve ser levada em conta. Quando os raios X entram em contato com superfícies metálicas (núcleos metálicos, materiais restauradores, gutta-percha), artefatos de imagem propagam-se nos exames tomográficos: é o chamado efeito beam hardening (endurecimento de feixe, em inglês). A presença de artefatos de imagem dificulta a interpretação tomográfica dos tecidos radiculares e perirradiculares/periapicais.

 

Imagens hiperdensas e hipodensas retilíneas: presença de artefatos de imagem oriundos de objetos metálicos (implantes na região posterior e núcleos metálicos nos dentes 12 e 23).

 

Evidente imagem hipodensa à parede radicular vestibular do dente 22: artefato de imagem provocado pela presença do núcleo intra-radicular)

 

E para concluir: o exame clínico é soberano. A radiologia odontológica é importante aliada, porém, os achados radiográficos devem ser SEMPRE correlacionados com os sinais e sintomas do paciente.  O caso a seguir, ilustra didaticamente a importância de se conjugar dados radiográficos e clínicos.

 

Linha hipodensa oblíqua observada no terço médio vestibular da raiz do dente 21. Fratura radicular? Presença de conduto acessório? O acompanhamento clínico é imprescindível neste caso: há ausência de sintomatologia, sem história de trauma e sem áreas de lise óssea perirradicular. Imagem compatível com conduto acessório.

 

 

Por André Simões – Especialista em Radiologia Odontológica

 

Referências Bibliográficas

-Patel S, Brown J, Pimental T, Kelly RD, Abella F, Durack C. Cone Beam computed tomography in Endodontics – a review of the literature. International Endodontic Journal, 2019 https://doi.org/10.1111/iej.13115

-Ahmed HMA, Dummer PMH. A new system for classifying tooth, root and canal anomalies. International Endodontic Journal, 2017. https://doi.org/10.1111/iej.12867

-Papaiz EG, Capella LRC, Oliveira RJ. Atlas de Tomografia Computadorizada por Feixe Cônico para o Cirurgião dentista. São Paulo: Editora Santos, 2011. Capítulos 2 e 3 (Alterações no Órgão Dental e Lesões do Periápice e Periodonto). Pags 41-60.

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