A importância da história clínica para o Radiologista Odontológico

A elaboração de um diagnóstico é um desafio. Inicia-se pelo exame clínico, onde estudamos os sinais e sintomas ante a um determinado quadro clínico. Em outras palavras, alterações anátomo-fisiológicas de uma região são manifestações clínicas (sinais) de uma dada doença, que são perceptíveis ao profissional; já os sintomas são relatos, fornecidos pelo doente (dor, ardor, prurido, etc.).

O exame clínico engloba a anamnese e o exame físico. Anamnese, palavra de origem grega, significa trazer de novo à memória. Trata-se de uma entrevista, que faz com que o paciente relembre todos os fatos relacionados à sua condição, como por exemplo:
-Queixa principal
-Tempo de duração
-Sintomas
-Tratamento pregresso, se houver
-Hábitos deletérios (tabagismo, etilismo, etc.)

Diante desta narrativa, o profissional colherá dados importantes sobre o distúrbio em questão, úteis para a elaboração de hipóteses de diagnóstico. Muitas vezes, sinais patognomônicos, ou seja, sinais quase que exclusivos de uma determinada doença, podem ser notados ainda na anamnese.

Através do exame físico,quando de alterações de tecidos moles, o Cirurgião Dentista consegue obter informações importantes valendo-se de manobras da semiotécnica (como a inspeção visual e a palpação), somadas ao estudo da anamnese. Para avaliar o tecido ósseo, o CD deve recorrer aos exames imaginológicos.

Em muitos exames radiográficos e tomográficos podemos avaliar a cronologia de erupção/irrupção dental, a qualidade de obturações endodônticas, o tecido ósseo adjacente à exodontias recentes e constatar a presença de cistos odontogênicos, por exemplo.

É claro que um exame imaginológico carrega consigo muitas informações valiosas, mas é muito importante para o Radiologista Odontológico que a solicitação do exame venha acompanhada da história clínica do paciente, por mais simples e corriqueira que possa parecer. Muitos achados imaginológicos desacompanhados de história clínica permanecem como incógnitas, o que dificulta a elaboração de uma hipótese de diagnóstico.

A seguir, daremos alguns exemplos de radiografias/cortes tomográficos, acrescidos de histórias clínicas importantes para o Radiologista Odontológico:

Caso I:

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Paciente do gênero masculino, 20 anos. Solicitação de tomografia computadorizada para avaliação endodôntica do elemento 11, tendo história de trauma ocorrido há 7 anos (soco na boca).

 

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Imagem hipodensa observada nos terços médio e apical da raiz do dente 11, compatível com reabsorção radicular externa e interna. Nota-se descontinuidade de parte da parede radicular vestibular. Há ainda reabsorção extensa da cortical vestibular.

Caso II:

Caso II: Paciente do gênero masculino, 25 anos. Solicitação para avaliação de patologia e pesquisa de fratura dental do elemento 46, onde o paciente relata dor ao mastigar.

Paciente do gênero masculino, 25 anos. Solicitação para avaliação de patologia e pesquisa de fratura dental do elemento 46, onde o paciente relata dor ao mastigar.

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Pela radiografia periapical inicial, verificamos que o elemento 46, birradicular, mostra aumento dos espaços pericementários correspondentes, bem como condutos com material obturador.

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Por meio de cortes tomográficos, verificamos reabsorção óssea (J) por distal. Nota-se linha hipodensa (M) de orientação oblíqua que começa no terço oclusal da porção coronária deste elemento, passa pela região de furca e estende-se até o terço cervical da raiz distal: solução de continuidade/trinca coronária e radicular.

Caso III:

Paciente do gênero feminino, 64 anos. Solicitação de tomografia para região de processo alveolar e corpo da mandíbula lado esquerdo, onde houve a retirada de implantes instalados às regiões correspondentes aos pré-molares e molares. Segundo informações colhidas com o profissional solicitante, e anamnese, o paciente apresentava coleção purulenta (periimplantite) e dor na região, após 3 meses da retirada dos implantes.

Caso III: Paciente do gênero feminino, 64 anos. Solicitação de tomografia para região de processo alveolar e corpo da mandíbula lado esquerdo, onde houve a retirada de implantes instalados às regiões correspondentes aos pré-molares e molares. Segundo informações colhidas com o profissional solicitante, e anamnese, o paciente apresentava coleção purulenta (periimplantite) e dor na região, após 3 meses da retirada dos implantes.

A vista panorâmica mostra imagem hipodensa de limites difusos na porção posterior do hemiarco inferior esquerdo, mais evidente na região de pré-molares.

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Por meio dos cortes tomográficos, verificamos imagem hipodensa difusa (A) no hemiarco inferior esquerdo, em sua região posterior, com presença de hiperdensidades, caracterizando sequestros ósseos (setas). Há rompimento da cortical lingual do processo alveolar, e notamos ainda, projeção hiperdensa da cortical da base da mandíbula (reação periosteal). Hipótese de diagnóstico: Osteomielite supurativa crônica.

Caso IV:

Caso IV: Paciente do gênero masculino, 39 anos. Solicitação de tomografia computadorizada para estudo da maxila, onde no lado direito houve manipulação cirúrgica de ameloblastoma ocorrido há 11 meses da presente tomografia. O elemento 13, não irrompido, associado ao tumor, foi removido. O solicitante suspeita de recidiva da lesão.

Paciente do gênero masculino, 39 anos. Solicitação de tomografia computadorizada para estudo da maxila, onde no lado direito houve manipulação cirúrgica de ameloblastoma ocorrido há 11 meses da presente tomografia. O elemento 13, não irrompido, associado ao tumor, foi removido. O solicitante suspeita de recidiva da lesão.

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Imagem hipodensa de limites difusos (sugerindo recidiva da lesão) em processo alveolar de maxila, partindo da linha média – lado direito – estendendo-se até superiormente às raízes do dente 14. Pode-se observar abaulamento e adelgaçamento das corticais vestibular do processo alveolar e do assoalho da cavidade nasal. Há solução de continuidade/rompimento da cortical da crista óssea alveolar à região do dente 13.

Caso V:

Paciente do gênero masculino, 28 anos. Solicitação de tomografia computadorizada para estudo das articulações temporo-mandibulares, onde o paciente relatava limitação de abertura de boca, bem como dor em região temporal do lado esquerdo, irradiada para a região occipital e temporal, ao acordar. O paciente relata apertamento/bruxismo noturno.

Caso V: Paciente do gênero masculino, 28 anos. Solicitação de tomografia computadorizada para estudo das articulações temporo-mandibulares, onde o paciente relatava limitação de abertura de boca, bem como dor em região temporal do lado esquerdo, irradiada para a região occipital e temporal, ao acordar. O paciente relata apertamento/bruxismo noturno.

Cortes tomográficos da região de ATM, boca aberta. Os cortes laterais mostram que as cabeças da mandíbula se posicionam aquém do limite articular (polo médio do tubérculo articular), traduzindo hipoexcurssão/hipomobilidade, tanto à direita quanto à esquerda.

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Cortes tomográficos da região de ATM, máxima intercuspidação. Os cortes laterais mostram retroposicionamento de ambas as cabeças da mandíbula, com consequente diminuição do espaço articular posterior.
Conclusão: a hipomobilidade/hipoexcurssão de ambas as cabeças da mandíbula, indica alteração na dinâmica condilar, o que representa, clinicamente, a limitação na abertura de boca. A oclusão dental traz repercussões na posição das cabeças da mandíbula. As cabeças da mandíbula retroposicionadas na cavidade articular refletem sobrecarga de forças na zona bilaminar retrodiscal, trazendo a sintomatologia dolorosa irradiada pela manhã.

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